segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA - MANOEL DE BARROS

Dedicado ao amigo Sábio
que um dia me mostrou como carregar água com uma peneira.



O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA

Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira

Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo

com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo

que catar espinhos na água

O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.

Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos

A mãe reparou que o menino gostava

mais do vazio do que do cheio.

Falava que os vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito

Porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever

seria o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu que era capaz

de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.

Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.

E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro

botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde

botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.

Até fez uma pedra dar flor!


Manoel de Barros, in Exercícios de ser criança, 1999

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