quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

NÃO DEIXEMOS MORRER O SONHO


A OLHA aconselha a leitura deste livro.

Só para que o sonho não se esfume e desapareça no ar sem deixar sinais para que o possamos procurar. Recuperar.


Eu tenho um amigo argumentista que me "abre os olhos". Quer-me acordada. Um dia trouxe-me Manoel de Barros. E eu nunca mais o larguei.


PARA PROFESSORES E ALUNOS.
ORA LEIAM.


Aula de Desgramática Poética

(Tal e qual a desa pren deu Luiz Car los Ramos,
no Livro das Igno rã ças, de Manuel de Bar ros)

Índio Guató

— Muito bem, cri an ças. Hoje vamos apren der a fazer poe sia com o poetaManuel de Bar ros…

Não se pre o cu pem, essa des gra má tica é apro pri ada a poe tas – essa dis cor­dân cia de número: o João é de Barro, mas o Manoel, de Barros…

Isso por que os poe tas são sem pre seres plu rais. E, na poe sia, o que importa não são as regras, mas os acidentes.

Foi o Roga ci ano, que era índio guató, que con tou a ele seguinte cosmologia:

“O mundo não foi feito em alfa beto. Senão que pri meiro em água e luz. Depois árvore. Depois lagar ti xas. Apa re ceu um homem na beira do rio. Apa re ceu uma ave na beira do rio. Apa­re ceu a con cha. E o mar estava na con cha. A pedra foi des co­berta por um índio. O índio fez fós foro da pedra e inven tou o fogo pra gente fazer bóia. Um menino escu tava o verme de uma planta, que era pardo. Sonhava-se muito com pere re cas e com mulhe res. As mos cas davam flor em março. Depois encon tra mos com a alma da chuva que vinha do lado da Bolí via – e demos no pé.”

Manoel, o poeta de Bar ros, conta que apren deu a fazer poe sia brin cando de des gra má tica, ou como ele cha mava, de agra má tica… é, de fazer defeito nas fra ses. ” Há que ape nas saber errar bem o seu idi oma”, explica.

A brin ca deira é assim, ele desen sina: Pri meiro, a gente tem que desin ven tar obje tos. O pente, por exem plo. Dar ao pente fun ções de não pen tear. Até que ele fique à dis po si ção de ser uma begô nia. Ou uma gra va nha. Usar algu mas pala vras que ainda não tenham idi oma. Repe tir repe tir – até ficar dife rente. Por que Poe sia é voar fora da asa. Ser puxado por ven tos e palavras.

Vamos ten tar? O Manoel começa e vocês continuam:

“ — Tirei as tri pas de uma palavra.”

“— A chuva defor mou a cor das horas.”

“— No chão da minha voz tem um outono.”

“— Sobre meu rosto vem dor mir a noite.”

“— Eu sou cul pado de mim.”

“— Eu escrevo o rumor das palavras.”

“— Lugar sem com por ta mento é o coração.”

“— Escuto a cor dos peixes.”

“— O escuro enfra quece meu olho.”

“— Ando muito com pleto de vazios.”

“— A minha inde pen dên cia tem algemas.”

“— Inclino a fala para uma oração.”

“— As coi sas me ampli a ram para menos.”

“— Me man ti mento de ventos.”

…

— Para béns cri an ças, vocês já estão diplo ma das em desgramática!


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